25/02/2022 Esse texto foi escrito pelo meu sobrinho Fran

Foi há 60 anos atrás. 

Bateram uma foto do casal.

Num mundo que a gente imagina que era tudo em preto e branco. Como se não houvesse cores nem música. 

Mocinha magra, delicada, olhar perdido ou talvez concentrado, sentada junto ao esposo, ele abrindo ou fechando um sorriso. Vai saber. 

Já tinha tido todos os filhos, a jovem.  Dela sei pouco, quase nada. Sei que a mãe era polonesa. Cresceu cercada de sotaques, chão de terra, luz de lamparina e fogo à lenha, típicos de gente que morava no fim do mundo, vindos de outras terras além mar. Gente que não chegou aqui de primeira classe e nem nunca viveu nela. 

Fantasio eu, assim do nada, entrar na foto. O mundo explodindo em cores vivas, ao som alto dos gaiteiros animando o salão, sentando à mesa pra beber um gole dessa coca de garrafa em vidro. Sem terem a mínima ideia de quem sou.

Jamais teria a coragem de dizer. E jamais contaria o destino deles dois. Não citaria sequer um verso sobre o futuro de quem só habitou o meu passado. Talvez tivesse a ousadia de me encaixar na foto, na deselegância de me colocar no meio deles, pra somente preencher um vazio que os dois, tentando pavimentar suas vidas, sequer imaginam que existirá um dia. 

Viver é deixar alguns vazios pelo caminho. Não há como preencher tudo. 

Eu diria pra essa moça pequena e quietinha, que ela é uma gigante. Tão maior do que parece. Que a cidade toda provavelmente só fala dela. Que ela é tudo menos invisível. Que até placa de rua ela merece ter, e um dia terá. Não falarei que é póstuma, mas riria dizendo que em cidades pequenas, homenagens assim são como anéis em dedos de pobre, causam inveja. 

 Se ela acreditaria não sei, mas a faria rir, só pra ouvir a risada dela. 
Há um dado curioso sobre as mulheres, que quando bebês, ainda dentro da barriga de suas mães, seus óvulos todos já estão formados. Todas as suas células já nascem prontas, como eu já fui dentro do corpinho da minha mãe uma vez, e como um dia, ela foi dentro do corpo dela.

De alguma forma, uma minúscula, invisível, ínfima partícula de mim, já esteve um dia dentro dela. Morreu mais jovem do que sou hoje, sem jamais ter um diálogo comigo ou uma chance de me dar oi na vida, mas que ironicamente, me abriu todas as chances de ter uma. 

Aos mortos chamamos de tudo, que se foram, que nos deixaram, que viraram fantasmas ou se tornaram história. 60 anos se passam e digo que mortos ainda vivem. Que falam e ensinam muito mais  que os vivos, e mesmo sem nunca ter tido um momento pra lembrar, o que chamamos de memória, eu chamo de saudade.

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